Reconhecer-se negra é ato de resistência

Ser negra nos dias de hoje talvez seja um pouco menos difícil do que foi para minha mãe,
avó, bisavó e outras ancestrais negras. Mas, isso não elimina o racismo presente nos dias
atuais. Levei quase 22 anos para me reconhecer negra, entender as batalhas enfrentadas
por conta da cor da pele e perceber que independentemente do que eu fizesse, precisaria
ser duas ou até três vezes melhor para conseguir algo. Por não ter a pele retinta, nem eu
mesma me enxergava negra e por isso deve existir um pequeno privilégio e mais tolerância
em determinadas situações.

Por diversas vezes, ouvi pessoas dizerem que eu era morena e meu cabelo (alisado) até
parecia liso de verdade, tudo isso como se fosse vergonhoso ser uma pessoa negra ou não
ter o cabelo liso. Durante a adolescência, sempre sofri por estar fora dos padrões de beleza
e na época não entendia o porquê, mas sentia na pele. Afinal, quantas vezes você
enxergou uma mulher negra como símbolo de beleza? Quando você pensa em uma mulher
bonita, alguma negra surge em sua mente? Eu arriscaria dizer não e é muito provável que
esteja certa.
Agora, imagine essa situação para uma jovem que está começando a vida: ter sua
autoestima rebaixada por conta de seus traços avantajados e cabelo volumoso. É isso que
a sociedade fez e infelizmente faz até hoje com a cabeça das mulheres negras. As pessoas
sempre cismam em dizer que determinadas cores não combinam com a pele negra. Usar
um batom rosa? Jamais! Isso não combina. Pintei meu cabelo de vermelho, fiz luzes loiras –
mas parece que só a Beyoncé tem licença poética para isso –, quis me vestir com cores,
porém nada nunca combinou. Segundo os olhares alheios, o melhor mesmo seria manter o
cabelo liso, preto e roupas discretas, assim não chama muita atenção.
Enquanto produzia um documentário sobre a cultura hip hop como trabalho de conclusão do
curso de jornalismo, entrevistei diversas pessoas e ouvi relatos de mulheres fortes,
empoderadas e negras, que sempre batalharam muito para conseguir espaço dentro do rap
e da sociedade, além de trazer representatividade dentro do movimento. Em uma dessas
conversas, uma frase me marcou bastante: “Essas coisas de preto, todas as pessoas têm
preconceito, até os próprios pretos têm”. No momento não fez tanto sentido, porém parando
pra pensar, mesmo sendo negra já tive pensamentos ou fiz comentários racistas, porque
isso está impregnado na sociedade, nas piadinhas que acreditamos não ter problema e na
forma como somos representados ou não representados na televisão, na arte e na vida.
Acredito que esse seja um dos principais motivos por ter demorado tantos anos para me
reconhecer negra. Talvez eu realmente estivesse me escondendo para não precisar encarar
de frente o racismo e sofrer com algo que machuca tanto todos os dias. Porém, sinto dizer
que não adiantou, pois a cada passo e nova conquista, o racismo estava presente, ou
melhor dizendo, as pessoas racistas estavam lá para tentar deslegitimar minhas ações. Um
exemplo disso, foi quando estava em um roda com alguns amigos e desconhecidos, e uma
mulher questionou se a minha função em uma das maiores editoras do país era ser
faxineira. Naquele momento ficou claro: por mais que eu me dedicasse e estudasse, as
pessoas não me reconheceriam como alguém capaz de ocupar altos cargos dentro de uma
empresa ou ter uma carreira como qualquer outra pessoa branca. Não teria problema algum
se eu fosse a faxineira do local, mas na verdade eu era uma estagiária de jornalismo que

estava lutando para conseguir seu espaço. Isso se estende também para a maioria dos
lugares em que trabalhei, a maioria era branca, classe média e privilegiada
Mesmo me frustrando em alguns momentos, com sensação de baixa autoestima e
encontrando pessoas com atitudes, gestos e palavras racistas, nunca me calei ou desisti,
embora sinta vontade algumas vezes. Ainda que a sociedade tenha uma dívida histórica
comigo, que provavelmente nunca será paga, me fortaleço através de outras mulheres
negras para enfrentar batalhas e conquistar o mínimo de respeito e empatia. Se um dia eu
pude me sentir representada e me reconheci como mulher preta ao ler o livro Minha
História, de Michelle Obama, espero que você também encontre uma fonte de inspiração
para enxergar o valor da sua história. E como tem sido reforçado ultimamente: não basta
não ser racista, é preciso ser antirracista.

Letícia Santiago
Letícia Santiago

Jornalista

2 comentários sobre “Reconhecer-se negra é ato de resistência

  1. Gostei muito do que escreves-te. Consigo relacionar-me, com muita coisa que escreves-te, uma delas a questão de encontrar inspiração negra…
    Espero ler mais posts teus num futuro imediato. 😊

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